
[ Baseado em fardos (sur)reais ]
Ele se espriguiçava levando as mãos a nuca. Depois levantando os dois braços. Depois baixava o esquerdo e coçava a nuca, mantendo o direito levantado – o braço a ser mantido variava. E bocejava exageradamente pra finalizar seu ritual. Coça os olhos com um pouco de sono – já estava na biblioteca por algumas horas sem desgrudar os olhos da leitura. Olha para o nada e antes que baixe a cabeça por completo numa posição confortável para retornar ao seu “banquete”, ele a viu subindo as escadas. Aquele mesmo cabelo castanho claro ondulado moldando o rosto branco decorado com dois olhos inquisitores sobre um narizinho empinado próximo à boca rosada – como se fosse um suave golpe de pincel finalizando a obra.
O pequeno corpo branco e macio – digo pequeno em altura, porque era um corpo largo, mas não gordo, era gostoso – passou por ele rápido, pisando o chão bem forte e negando a existência daquele corpo sentado bem próximo. Dobrou a esquerda e se perdeu entre as estantes de Literatura. Ele ficou louco, não a via desde Dezembro e já era quase Carnaval. Ele era facinado em olhar pra ela, nunca havia dado um “oi” sequer, mas se contentava em olhar, talvez algo a mais estragasse o encanto. Mas ele tomou coragem – nem tanta assim – e foi em direção aos livros de Literatura. Foi ao meio do corredor – ela estava no início – fingia procurar livros e foi se aproximando despreocupadamente. Então, disparou:
- Você cursa letras, né? – ele perguntou hesitante.
- Sim. – ela respondeu indiferente.
- Indica um bom livro?
- De que você gosta? – ela nem olhava pra ele.
- Dos que não me deixem parar de ler.
- Talvez eu não possa lhe ajudar. – ela disse num tom de fim de conversa.
Ele percebeu e retomou.
- Não?
- Eu preciso saber do seu gosto. – ela respondeu impaciente, olhando pra ele e franzindo a testa.
- Pedi uma indicação, então confie no seu gosto. – falando firme.
- Eu confio. E ele me diz que eu não gosto de você. – quase mutilando com os olhos.
- É? Vejo que somos opostos, então. – um tom descontraído na voz.
- É? – voz indiferente, despreocupada procurando seus livros.
- Sim, eu gosto de você. Idiotamente. – lançando um olhar dissimulado.
- Olhe… Já disse que não posso lhe ajudar.
- Tá, já me contenta ler você.
- Eu sou uma nota. Você tem dez segundos…
Ela virou as costas e saiu. Ele manteve o seu sorriso de escárnio
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