Arquivos | abril, 2011

Entre livros e ilusões

27 abr

[ Baseado em fardos (sur)reais ]

 Ele se espriguiçava levando as mãos a nuca. Depois levantando os dois braços. Depois baixava o esquerdo e coçava a nuca, mantendo o direito levantado – o braço a ser mantido variava. E bocejava exageradamente pra finalizar seu ritual. Coça os olhos com um pouco de sono – já estava na biblioteca por algumas horas sem desgrudar os olhos da leitura. Olha para o nada e antes que baixe a cabeça por completo numa posição confortável para retornar ao seu “banquete”, ele a viu subindo as escadas. Aquele mesmo cabelo castanho claro ondulado moldando o rosto branco decorado com dois olhos inquisitores sobre um narizinho empinado próximo à boca rosada – como se fosse um suave golpe de pincel finalizando a obra.

 O pequeno corpo branco e macio – digo pequeno em altura, porque era um corpo largo, mas não gordo, era gostoso – passou por ele rápido, pisando o chão bem forte e negando a existência daquele corpo sentado bem próximo. Dobrou a esquerda e se perdeu entre as estantes de Literatura. Ele ficou louco, não a via desde Dezembro e já era quase Carnaval. Ele era facinado em olhar pra ela, nunca havia dado um “oi” sequer, mas se contentava em olhar, talvez algo a mais estragasse o encanto. Mas ele tomou coragem – nem tanta assim – e foi em direção aos livros de Literatura. Foi ao meio do corredor – ela estava no início – fingia procurar livros e foi se aproximando despreocupadamente. Então, disparou:

- Você cursa letras, né? – ele perguntou hesitante.

 - Sim. – ela respondeu indiferente.

 - Indica um bom livro?

 - De que você gosta? – ela nem olhava pra ele.

 - Dos que não me deixem parar de ler.

 - Talvez eu não possa lhe ajudar. – ela disse num tom de fim de conversa.

Ele percebeu e retomou.

- Não?

- Eu preciso saber do seu gosto. – ela respondeu impaciente, olhando pra ele e franzindo a testa.

- Pedi uma indicação, então confie no seu gosto. – falando firme.

- Eu confio. E ele me diz que eu não gosto de você. – quase mutilando com os olhos.

- É? Vejo que somos opostos, então. – um tom descontraído na voz.

- É? – voz indiferente, despreocupada procurando seus livros.

- Sim, eu gosto de você. Idiotamente. – lançando um olhar dissimulado.

- Olhe… Já disse que não posso lhe ajudar.

- Tá, já me contenta ler você.

- Eu sou uma nota. Você tem dez segundos…

Ela virou as costas e saiu. Ele manteve o seu sorriso de escárnio

Uma rapidinha (ou “Amor à Primeira Transa”)

12 abr

Casório no agreste, em uma cidade pequenina. Meia hora de atraso – se é que se pode chamar tal momento de atraso, afinal faz parte da festa ver o noivo suar. Duas pingas pra acalmar. Menino querendo doce. Choro de mãe. Padrinhos nervosos. Um casal se olha. Burburinho, e logo o silêncio. A noiva chega. Correria. Um casal se olha. Todos em seus lugares, levantam-se. Um casal sai.

Noivos caminham pro altar. O casal corre para o banco traseiro da kombi. O padre saúda a igreja. As bocas se saúdam. Nervosismo e aperto no peito dos noivos. Aperto de corpos entre o casal. Borboletas no estômago dos noivos. Cabeçadas entre as coxas do casal. Choro e suspiro na igreja. Gemidos e sussuros na kombi. Selando o amor. Melando o calção.

- Que fale agora ou cala-se para…

- Nós também queremos casar!

S-u-r-p-r-e-s-a geral! Satisfação e prazer em dupla! Era só isso que importava. Loucura?

- Que sejam felizes para sempre!

Quanto dura o para sempre?

Um casal, amor. E o outro? Amor, também. Por que não?

- Vamos dar mais uma?

Que fale agora ou case-se para sempre.

 

alô, alô, Realengo!

10 abr

 

 

Crucifica-o!

Pela televisão escorre sangue. Nos seus olhos também. Crianças mortas por um morto-vivo. Barrabás é o herói, e Pilatos diz “muito obrigado” – sempre de mãos lavadas, um toc.

A cheirosinha do jornal e os doutores especialistas dizem (repetem repetem repetem choram) “monstro”. Os humanóides dizem “Sim! Monstro”.

Crucifica-o! Pena que ele já morreu… Comeríamos a carne dele.

Alzheimer para a miséria absoluta, para o chão rachado após tremor 8.0 na escala richter na vida de muitos outros miseráveis.

Entre a periferia e o firmamento há mais inferno e realengos que nossa vã ignorância possa desconsiderar. Nosso neonazismo camuflado em boa moral cristã quer inquisição de mãos bem lavadas.

Ninguém se crucifica nesse (por esse) Real Engenho. Real Engº. Realengo.

 

Fatal

6 abr

- A senhora tem um tumor maligno. Começou no pulmão e agora…

 

Bla, bla, bla!! Diga logo qual o dia, caralho.

 

- Quanto tempo, doutor?

- Três meses. Consequência do cigarro! Tente parar e fazer…

 

Tente parar de transar por uma semana, imbecil. Vai ver como me sinto sem fumar.

 

Trêmula, sai da clínica, deixa o olhar se perder na avenida e tira da bolsa o seu companheiro de toda obra e hora desde os 13 anos: o cigarro.

 

Preciso dar! Preciso dar! Nããããão! Eu TENHO que dar!

 

- Táxi!!!

- Pra onde, senhora?

- Siga a BR até a saída da cidade.

Daqui pro fim da cidade são meus exatos três meses.

- Ali, ali! A esquerda, logo após o retorno!

- Aqui, moça?! Aqui?!

- Isso! Entra e não me pergunta mais nada até estacionar.

 

“Amor Fatal” piscava em vermelho neon. Parecia premeditado.

 

Carro parado. Porta aberta. Ar ligado! AGORA!

 

- Tira a roupa, cara!

- Moça, tem certeza?!

- Tira logo!

- Oh, assim, nem precisa pagar a viagem…

 

Dois corpos nus.

 

- Deita, velho.

Puxa o brinquedinho. Longo e frio.

 

- Moça, o que é isso? Pra que isso? Não, não…

- Eu preciso relaxar. Não vai me ajudar? Vira, posição fetal.

 

Nu eu vim, nu voltarei. Pra que esperar três meses?

 

E ela deu. Dois estouros secos. Vermelho. Silêncio.

 

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