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Quinze Horas

24 fev

Ventilador ligado, único barulho. Um sonho:

- O que você sente? – sussuro com os /s/ marcardos.

- Eu sinto que vou morrer… – gaguejando, assustado.

Sobressaltado, levanta e olha a hora – 4h, início de manhã. No espelho, um rosto ainda assustado e suado. Banho quente resolve, relaxa. E café pra pensar – forte e sem açúcar, no estilo Buendía -, com braços apoiados no mármores negro. Tem padoca para molhar no café – e espalhar farelos. Escova os dentes, o som ainda ligado com uma música qualquer de uma rádio local. Coça a barba, olha o retrato, vira a chave e sai. O som continua ligado.

*  *  *

Caminha até o ponto de ônibus, sai bem mais cedo que de costumo. Uma tangerina na mão vai sumindo pouco a pouco. No ônibus, poesias sujas são repassadas. Desce no Campus, quase na sala. Professor substituto, o primeiro passo de um vida longa que viria. De lá, ao sol, para a biblioteca até as 12h. O chinês nosso de cada almoço. Ah, dessa vez com suco. Era o combinado: junto sem coca, só suco.

*  *  *

“Qualquer dia a gente vira cidadão da noite”, reclama sobre o sol forte. Corre para o aeroporto, compra uma revista – qualquer uma, é só gostar da capa. Cinco para as quinze. Vai ao vidro e bebe água. Pessoas descem, ela não. São quinze e trinta. Pessoas descem, ela não. Bate dezesseis: “Não é hoje que o avião vem, devo ter confundido”.

*  *  *

As quinze horas são esperadas há um mês. A mesma rotina circula como sangue. Todos os planos e sorrisos cairam do céu ao chão. E o dia se vai. E ela nunca virá.

*  *  *

“Quem sabe o que é ter e perder alguém

Faz tanta falta o teu amor e te esperar…

Não sei viver sem te ter

Não dá mais pra ser assim”

Embaçou

14 jun

- Quando chegar em casa, me liga, amor!

- Ligo, sim. Ou entro no MSN, tá? Tchau.

Um beijo singelo dele. Um abraço desesperado dela. Um dueto:

- Vou sentir saudades.

Então, ele partiu no seu carro amassado rumo à BR. A chuva caía como benção. Pingo de chuva fraca não vai embora com pára-brisas; espalha. Tudo embaçado.

* * * * *

A chuva caía como maldição.

* * * * *

Um barulho como de trovão. Dois carros amassados.

* * * * *

A chuva havia parado. Nada mais embaçado. Tudo mais limpo e nítido através do pára-brisa. Mas o caminho parecia ser diferente. Ele para o carro e buzina para a criança na estrada:

- Por favor, essa estrada vai dar onde?

- Moço, não reconhece as ruas de ouro? Você já fez uma longa viagem. É melhor descansar.

* * * * *

Sem ligações, Sem MSN. Nunca mais beijos singelos, nem abraços desesperados. Só saudades.

Carta a quem vai partir

8 jan
Viajante,
Leve mala leve, ponha só o necessário.
A rosa, o livro e o filme guarde no peito.
Viaje leve, alma limpa. Cabeça erguida.
Siga seu rumo, vá crescer e dar um prumo!
.
Guardo os poemas de folha de caderno
Os desenhos de barcos e estrelas nomeadas
As fotos do festival repetem o som
Como do disco naquela noite de sábado
.
Entrei o ano suando e gostando sem “T”
Compus, me afinei, conheci a Lilly Braun
Mergulhei em filmes, voei sobre livros
E cavalguei em arquibancadas sujas de areia
Sempre levando você ou deixando ser levado
.
Mas o trem chegou e levou
A leitora, cavaleira, poetisa
Leve, viajante, todas as lembranças
Deixe meu coração
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