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Carta a Papai Noée

31 dez

Luiz Campos

Seu moço, eu fui um garoto

Infeliz na minha infância

Qui eu sube que fui criança

Mas pela boca dos ôto.

Só brinquei cum os gafanhoto

Qui achava nos tabuleiro,

Debaixo dos juazeiro

Com minhas vacas de osso

Essas catrevage, sêo moço

Que se arranja sem dinheiro.

.

Quando eu via um gurizin

Brincando de velocipe,

De caminhão e de jipe,

Bola,  revóve e carrin

Sentia dento de mim

Desgosto que dava medo,

Ficava chupando o dedo

Chorando o resto do dia

Só pruque eu num pudia

Pegar naqueles brinquedo

.

Mas preguntei uma vez

A uns fio de dotô

- Diga, fazendo um favô

Quem dá isso pra vocês?

Mim respondeu logo uns três:

- Isso aqui é presente

Qui a gente é inocente

Vai drumí às vezes nem nota

Aí Papai Noé bota

Perto do berço da gente

.

Fiquei naquilo pensando

Inté o natá chegá

E na noite de natpa

Eu fui drumi m’a lembrando…

Acorei, i fiquei caçando

Por onde eu tava deitado.

Seu moço, eu fui enganado

Qui de presente o que tinha

Era de mijo uma pocinha

Qui eu mesmo tinha botado

.

Saí c’a bixiga preta

Caçando os amigo meu

Quando eles mostraro a eu

Caminhão, carro e carreta,

Bola, revóve, corneta,

E trem elétrico até

Boneca, máquina de pé,

Mas num brinquei, só fiz vê

E risuví escrevê

Uma carta a Papai Noé.

.

“Papai Noé, é pecao

Os outro se martratá

Mas eu vou ali recramá

Um troço qui tá errado.

Qui aos fio do deputado

Você dá tanto carrin,

Mas você é muito rim

Que lá em casa num vai

Por certo num é meu pai

Qui num se lembra de mim.

.

Já tô certo que você

Só balança o povo seu

E um pobe quinem eu

Você vê, faz qui num vê.

E se você vê, porque

Na minha casa num vem?

O rancho que a gente tem

É pequeno, mas lhe cabe.

Será que você num sabe

Qui pobe é gente também?

.

Você, de roupa incarnada,

Colorida, bonitinha,

Nunca reparou qui a minha

Já tá toda remendada;

Seja mais meu camarada

Pr’eu num chamá-lo de rim

Para o ano faça assim:

Dê meno ao fio dos rico

De cada um tire um tico,

Traga um presente pra mim.

.

Meu endereço eu vou dá,

Da casa que eu moro nela.

Moro naquela favela

Que você nunca foi lá,

Mas quando você chegá

Qui avistá uma paioça

Cuberta cum lona grossa

Cum dois buracão bem grande,

Uma porta véia de frande

Pode batê, que é a nossa.”

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