Capuccino e um bom papo ao entardecer em um Salão Café retrô. Ah, muito jazz rolando como música de fundo (tem gente que diz que não entende jazz, é muito simples: frases que se repetem e em momentos entre as repetições cada instrumento faz seu improviso). Eu e a menina do sinal no queixo – a boa companhia – descemos a rua principal do bairro histórico, conversamos um pouco na praça do teatro respirando aquele ar pesado do anoitecer. E, afinal, a tarde agradável tinha que ir embora, mas de ônibus, obviamente.
Da Zona Leste a Zona Oeste nós fomos, mas no meio do caminho tinha um idoso, tinha um idoso no meio do caminho. Com cara de mendigo o idoso, o idoso com cara de mendigo. Pede parada o idoso. Sobe por trás o idoso. O idoso senta idoso. Sentadinho. Eis que gritam pro idoso:
- O senhor é carteira?! Tem que ter carteira!!!
E minha mente cheia de merda (leia-se mente fértil) traduziu:
- Seu velho, você tem a merda da carteira? Tem que ter a porra da carteira!! Você é pobre?! Não tem dinheiro para pagar?! Quer que meu chefe lance minha cabeça fora por causa de um pobre lascada como você?! Seu imundo!!!
Somos coisas. Somos números e papéis. Somos o que temos, nunca o que somos – no máximo o que parecemos ser. Você é o papelzinho verde ou o plástico azul. Você só pode conversar com as pessoas que tem a mesma quantidade de zeros que você. Ah, e se você não tem conta no banco nunca será uma pessoa melhor, nem feliz nem realizada. Afinal, comprar é sinal de auto-realização.
Sempre caminharás com o grupo de pessoas que usam a mesma marca de calçado que a sua, pois ela é também a marca da sua personalidade. Você oferece segurança e tem liberdade se tiver o carro 2010 que é lançado em 2009. Perca as pernas, mas não perca o carro.
Você não precisa de ideias, basta ter camisas legais ou uma quantidade excessiva de músculos. Cérebro é algo que não precisa existir. Se uma dia você tiver morte cerebral, relaxe, a vida segue!
E não esqueça, dinheiro é TUDO!!! Você só tem tudo isso se tiver dinheiro! Se arrumar um trabalho não se importe em fazer o que gosta, importe-se em ganhar muito dinheiro, juntar bastante dinheiro! Para que isso serve eu não sei! Acho que as pessoas comem dinheiro, afinal ele é tão coloridinho e dizem que quanto mais colorido o prato for, mais nutritivo será!
Tem gente que não entende jazz. Eu não entendo as pessoas. Jazz é simples. Pessoas, sim, são complicadas. O motorista era gente e o velho também. O velho indigente era coisa. O motorista era máquina. Máquinas só aceitam papéis e coisas. Mas a coisa velha não tinha valor, deveria ser jogada fora. Relações econômicas substituiram relações familiares, foi o que Marx disse. Nada mais coerente.
Pessoas são complicadas. Jazz é simples!
Ei, seu velho.
No caderninho