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Espelho, espelho eu

19 abr

Era um espelho

(Na verdade, ainda é)

Imitando todos os rostos

Imitando até as vozes

Podia ser alegre, podia ser triste

Todo amor do mundo ou até todo o ódio

Geralmente era indiferente

Não porque quisesse, mas pra evitar arranhões

Porém, sempre quis que o quebrassem

Acham que quebrar espelhos traz azar

Eu garanto: pode trazer toda a sorte.

As Nuvens

10 abr

Elas estão lá no alto

São grandes, brancas, expressivas

Suspensas; prestes a desmoronar

Por um sopro, sobre nossas cabeças

Esmagar nossos corpos com sua imensa leveza

.

Elas são relevo de outro plano

Tapete celestial, cenário de uma peça

Encenada por nós, moradores do seu subsolo

Atores à deriva numa epopeia trágica

Prestes a soprar e explodir tudo

Jazz é simples.

19 set

Capuccino e um bom papo ao entardecer em um Salão Café retrô. Ah, muito jazz rolando como música de fundo (tem gente que diz que não entende jazz, é muito simples: frases que se repetem e em momentos entre as repetições cada instrumento faz seu improviso). Eu e a menina do sinal no queixo – a boa companhia – descemos a rua principal do bairro histórico, conversamos um pouco na praça do teatro respirando aquele ar pesado do anoitecer. E, afinal, a tarde agradável tinha que ir embora, mas de ônibus, obviamente.

Da Zona Leste a Zona Oeste nós fomos, mas no meio do caminho tinha um idoso, tinha um idoso no meio do caminho. Com cara de mendigo o idoso, o idoso com cara de mendigo. Pede parada o idoso. Sobe por trás o idoso. O idoso senta idoso. Sentadinho. Eis que gritam pro idoso:

- O senhor é carteira?! Tem que ter carteira!!!

E minha mente cheia de merda (leia-se mente fértil) traduziu:

- Seu velho, você tem a merda da carteira? Tem que ter a porra da carteira!! Você é pobre?! Não tem dinheiro para pagar?! Quer que meu chefe lance minha cabeça fora por causa de um pobre lascada como você?! Seu imundo!!!

Somos coisas. Somos números e papéis. Somos o que temos, nunca o que somos – no máximo o que parecemos ser. Você é o papelzinho verde ou o plástico azul. Você só pode conversar com as pessoas que tem a mesma quantidade de zeros que você. Ah, e se você não tem conta no banco nunca será uma pessoa melhor, nem feliz nem realizada. Afinal, comprar é sinal de auto-realização.

Sempre caminharás com o grupo de pessoas que usam a mesma marca de calçado que a sua, pois ela é também a marca da sua personalidade. Você oferece segurança e tem liberdade se tiver o carro 2010 que é lançado em 2009. Perca as pernas, mas não perca o carro.

Você não precisa de ideias, basta ter camisas legais ou uma quantidade excessiva de músculos. Cérebro é algo que não precisa existir. Se uma dia você tiver morte cerebral, relaxe, a vida segue!

E não esqueça, dinheiro é TUDO!!! Você só tem tudo isso se tiver dinheiro! Se arrumar um trabalho não se importe em fazer o que gosta, importe-se em ganhar muito dinheiro, juntar bastante dinheiro! Para que isso serve eu não sei! Acho que as pessoas comem dinheiro, afinal ele é tão coloridinho e dizem que quanto mais colorido o prato for, mais nutritivo será!

Tem gente que não entende jazz. Eu não entendo as pessoas. Jazz é simples. Pessoas, sim, são complicadas. O motorista era gente e o velho também. O velho indigente era coisa. O motorista era máquina. Máquinas só aceitam papéis e coisas. Mas a coisa velha não tinha valor, deveria ser jogada fora. Relações econômicas substituiram relações familiares, foi o que Marx disse. Nada mais coerente.

Pessoas são complicadas. Jazz é simples!

Ei, seu velho.

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