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Faxina

22 mai

Oh, tem uma carta em cima da mesa

Tentei me explicar escrevendo, minha voz é gaga

Você sabe que eu prefiro escrever, sempre soube

Tô tentando limpar a poeira, nunca aprendi a lidar com essas tarefas

Não quero deixar nada debaixo do tapete, limparei tudinho

Desculpa manchar a casa, mas é por puro desastre

Acredita em mim, né?

Vou tentar recuperar o brilho da janela

Sua casa é linda, já disse?

.

PS: Espalhei uns bilhetinhos por aí dizendo que te quero tanto. E o chocolate tá no sofá.

Beijinho

25 abr

Uma hora da manhã. A conversa rolava pela internet. Ele queria que fosse como a noite anterior no mesmo horário: abraços em nó, estrelas acima e peito aberto. Não sei se ela queria assim, pois dizia que não falava, nunca elogiava, não gosta de se expor. É um direito de todo mundo se defender. Quem é que acha bonito cicatriz?

Como leve brincadeira, frase ingênua, ela convida:

- Vem aqui, liga a TV e senta comigo! – ela doente, enjoada.

Descobrir o querer da magrinha era sempre uma aventura para ele, porque tropeçava para dentro de si e descobria tantas outras coisas. Com aquele sorriso escondido sempre no canto da boca, ele digitou:

- Era tudo que eu queria!

Mão alisava a tela como se fosse um rosto e o olhar se perdia. E por falar em se perder, lá ia a mão dele por dentro da tela. E não demorou pro corpo todo entrar e cair no sofá marrom.

- Cheguei! – ele disse com a maior cara de satisfação.

- Como assim “cheguei”? – surpresa na voz, mas era o que chamam de uma pontinha, apenas.

- Ah, você me chamou. Tô aqui! Que tal filme?

- Topo música, mas com beijinho ou pipoca. – sugestões cheias de dengo da menina.

- Eu topo o beijinho ou muitos deles.

O que acontece daqui pra frente são detalhes que pouco importam a quem lê. Coisas que só interessam aos dois. Só posso dizer que o tacho dos beijinhos sempre se manteve quente. Ah, e não pensem muita sacanagem. O principal daquela noite foi a conversa, a boa conversa. Algo raro. Peito aberto. O próprio absurdo. Isso vocês não vão entender. Mas ninguém entende bem o que o outro vive mesmo.

Tente fazer o que você tem mais medo, talvez você entenda o que rolou na noite dos beijinhos sobre o sofá sob o céu estrelado.

O próprio absurdo.

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